Mostrando postagens com marcador a lista (trechos). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador a lista (trechos). Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

já na lista

Todos os dias que depois vieram, eram tempo de doer. Miguilim tinha sido arrancado de uma porção de coisas, e estava no mesmo lugar. Quando chegava o poder de chorar, era até bom - enquanto estava chorando, parecia que a alma toda se sacudia, misturando ao vivo todas as lembranças, as mais novas e as muito antigas. Mas, no mais das horas, ele estava cansado. Cansado e como que assustado. Sufocado. Ele não era ele mesmo. Diante dele, as pessoas, as coisas, perdiam o peso de ser.

Manuelzão e Miguilim, João Guimarães Rosa

Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas me sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só essa vontade quase simples de estender o braço pra tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nessa janela, já dissemos tudo o que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação, impressão, ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e com a ponta dos meus dedos tocar você, natural que seja assim: O toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora.

Anotações sobre um amor urbano, Caio Fernando Abreu

para a lista

- Deve haver muitas diferenças entre nós.
- Diferenças? E então? Se não houvesse diferenças nós seríamos uma pessoa só.

**********

A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste que me deu uma alma agreste.

**********

Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração.

**********

Mais tarde, no escritório, uma idéia indeterminada saltou-me na cabeça, esteve por lá um instante quebrando louça e deu o fora. Quando tentei agarrá-la ia longe.

**********

O que estou é velho. Cinqüenta anos pelo São Pedro. Cinqüenta anos perdidos, cinqüenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada.

**********

Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige.

São Bernardo, Graciliano Ramos

terça-feira, 16 de outubro de 2007

lindo lindo

“Eis o mistério que me deixava desconcertado naquela época, e continua deixando. Como é que ela podia estar comigo num momento e no outro, não? Como podia estar em qualquer outro lugar, de forma tão absoluta? Era isso que eu não conseguia entender; era isso que eu não conseguia aceitar, e continuo não conseguindo. Uma vez afastada da minha presença, ela deveria ter se tornado imediatamente pura ficção, uma recordação minha, um sonho meu; mas todas as evidências me diziam que, mesmo de longe, ela permanecia ela mesma, de um jeito sólido, obstinado, incompreensível. E, no entanto, as pessoas vão embora, desaparecem. Esse era o maior mistério, o maior de todos.”

O Mar, John Banville

quarta-feira, 6 de junho de 2007

O Mar, de John Banville

Alguns trechos dessa pequena obra-prima como recomendação fervorosa:

“O passado está pulsando no meu peito, como um segundo coração”

“Desviei os olhos com medo de que eles pudessem me trair; os olhos de alguém são sempre de outra pessoa, daquele gnomo louco e desesperado que fica encolhido ali dentro.”

“A água ferveu e a chaleira desligou sozinha. A água, ali dentro, foi se aquietando, mal-humorada. Fiquei impressionado, e não foi a primeira vez, com a complacência cruel das coisas comuns.”

“... continua sorrindo para mim daquele modo meio desfocado, que, agora me dou conta, era o jeito como olhava para tudo, como se não estivesse absolutamente convencida da solidez do mundo...”

"Mas por outro lado, em que momento a vida não muda inteiramente, até aquela última mudança, a mais momentânea de todas?"

A respeito dele aqui